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“ter uma terra é o diabo…”

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Demorou quarenta e cinco anos, quarenta e cinco exactos anos para descobrir que lhe pertencia, para perceber que era aquela a sua terra. Não outra, não essa cidade onde nasceu, nem a outra, onde viveu, ou sequer aquela onde casou e que o levava a atravessar oceanos, tão-pouco essa que agora lhe dá o pão. Era aquela serra, aqueles penedos toscos, o rude granito e a terra dura, a vegetação rasteira e os pinheiros vergados, o ar milagroso ou as núvens de Besteiros, o frio do Caramulinho e a neve envergonhada, o museu ou os decrépitos sanatórios, a chanfana dos Jueus e a laranja do Figueiral, as uvas de Janardo ou os tortulhos dos lameiros, os piscos que resistem ao inverno e as borboletas que enfeitam a primavera, era aquela serra que se abatia agora sobre ele com o peso da saudade, com a urgência do regresso. Ao frio, à lareira, ao velho Café Marte ou ao passeio matinal pelo “povo”, às rabanadas ou à sopa-seca, regresso a si mesmo, agora que sabia ser dali. Só dali, do Caramulo, Paredes do Guardão ou Serra de Alcoba, tanto faz. É ali que regressará, depois de contar os dias, as horas e os minutos. Os passos, milhas ou quilómetros até chegar, em véspera do seu quadragésimo quinto Natal. Assim o ajude a estrela, assim o guie o destino…

f1,8

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fotografiaA minha infância foi povoada por belas objectivas em corpos difíceis. Até hoje guardo a magnífica e luminosa Pentacon 50mm f1,8 com quem partilhei várias Zenit e algumas Praktica, com quem fotografei brincos-de-princesa ou a ribeira do Porto. Vinda de Leste foi ela a minha companheira de anos, dos anos em que aprendi o que era um diafragma, ou a velocidade de obturação, mas aprendi sobretudo o que fazer com eles. Depois o progresso, a voragem da evolução, da suposta democratização da fotografia, à custa de objectivas zoom que, visando o preço, deixaram para trás a luminosidade que outrora envaidecia qualquer lente. E eu deixando-me ir, seduzido pela versatilidade apregoada, esquecendo como era fotografar, como era pensar uma fotografia, planear mentalmente o que fazer com aquela luz, rodando o anel do diafragma em busca daquela combinação, esperando o momento decisivo. Mas, como tanto na vida, há uma hora para voltar. A Nikon percebeu-o com a sua novíssima Df e com os seus belos vídeos de promoção. Percebi-o eu e, inspirado nesses vídeos voltei. Voltei, e resgatando uma velhinha e luminosa 50mm f1,8 do meu pai, voltei ao verde deste Outono, às cores autênticas, à luz natural, à cerimoniosa escolha da abertura e da velocidade de obturação. Voltei para fotografar a Luísa num qualquer Domingo, lembrando Domingos antigos em que se fotografava a família vestida a rigor. Domingos que agora não quero deixar, Domingos a que me apetece voltar. A que voltarei.

Nikon -Pure Photography #1
Nikon -Pure Photography #2
Nikon -Pure Photography #3
Nikon -Pure Photography #4
Nikon -Pure Photography #5
Nikon -Pure Photography #6