Category Archives: Photography

2015 em imagens

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Depois de esboços diversos, de tentativas de separação por temas, de fracassos variados e de fotografias em excesso, deixo aqui finalmente as minhas imagens favoritas de 2015. 25.

@nossalingua

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Todas as fotografias têm duas faces. Uma, é a que está por detrás da câmara, a que o fotógrafo vê, o instante, o antes e o depois. O que se vislumbra no visor e todo o resto. A outra face é a que se pendura na parede, a página de um livro. Datada e localizada, é o instante congelado. É essa face, é a diferença entre as duas faces, que determina a fotografia, o seu sentido. Quanto mais próximas, maior é a probabilidade de sucesso. Quanto mais próximas, quanto mais a fotografia foi cumprida.

nossalingua

O projecto @nossalingua, que será apresentado no Rio de Janeiro, na próxima quarta-feira, pretendendo construir um documento visual abrangendo países de expressão Portuguesa, escolheu 100 fotografias, divididas em 10 missões, cada uma com seu tema. Três dessas fotografias são minhas, nas missões trabalho, e palavra.

Eis a face oculta de cada uma delas. E a visível, também.

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  1. Açores, 2007. Missão: trabalho

Tinha chegado há poucas horas a Ponta Delgada, naquela que foi a minha primeira viagem ao Arquipélago. O destino, depois da Lagoa do Fogo, era a costa norte, para uma visita à plantação e fábrica de chá da Gorreana. Descendo, uma curta paragem para admirar a paisagem Açoreana. Verde e mar. Atrás olhando para trás, foi um pastor que conquistou a minha atenção, lá atrás, ordenhando cabras, com a companhia do fiel cão. À frente o vasto Atlântico. No ar a humidade. E o sotaque carregado das Ilhas.

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  1. Gaia, 2011. Missão:

O Senhor da Pedra, na praia de Miramar, é um dos mais impressionantes locais que conheço. Dos mais poéticos, mágicos. A capela, construída sobre um rochedo, de costas para o mar, ocupa o espaço que outrora teria sido palco de culto pagão. O mar, o Atlântico de Janeiro, prateado, cor-de-robalo, pedia veneração. Talvez fosse essa devoção a razão da silhueta, junto à capela. Foi a razão da foto.

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  1. Porto, 2013. Missão: palavra

A pérgola da Avenida do Brasil é local simbólico para os Portuenses, palco de passeios Domingueiros, com vista para o mar revolto, para a costa pedregosa. Naquele Domingo de Janeiro experimentava a minha nova reflex, comprada dias antes, e a ideia era de fotografar precisamente o que a Foz nos oferece, a costa agreste e o grande Atlântico. Mais abaixo, contudo, faziam-se palavras cruzadas, passatempo em desuso que me ocupou horas e horas na infância e adolescência. Senti-me tentado, confesso, a espreitar através do visor o enunciado e as letras que iam aparecendo nas quadrículas. E talvez soltar uma dica, uma sugestão solta. Fiquei-me pela perspectiva geral, fiquei-me por esse outro passatempo, mais sério, mais duradouro, que é a fotografia..

Proletário

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I

Proletário. Indivíduo que, segundo Sérvio Túlio, não possuía outra utilidade para além da capacidade de gerar prole para engrossar as fileiras do exército romano. Estávamos no Século V antes de Cristo, e esta é a primeira definição do Proletário, qua haveria de perdurar até ao efervescente Século XIX. Aqui, o termo Proletário foi resgatado, para responder à necessidade de definir a classe trabalhadora saída da Revolução Industrial, privada de propriedades ou de qualquer outro meio de subsistência, que não a venda da sua força de trabalho à classe dominante, a classe Capitalista, detentora dos meios de produção.

II

China, 2014. A viagem era de trabalho e haveria, imaginava, pouco espaço para fotos, menos tempo para turismo. Um plano mínimo e muitas viagens aconselhavam bagagem leve. A pesada reflex perdia a batalha para a pequena compacta. Seria a pequena fuji a acompanhar-me nessa longa jornada.

III

Três semanas, de Guangzhou a Shanghai. De comboio ou avião, autocarro e taxis. Foshan, Shenzen e Wuhan. Ningbo, Yuyao e Wenling. Um sem-número de fábricas a visitar, várias por dia. Fundições, alumínio, latão e forjas. Fábricas, muitas fábricas vindas directamente do passado, de um passado longínquo, da revolução industrial, do Século XIX. Da reinvenção do Proletariado.

IV

As primeiras visitas, as primeiras fábricas revelaram algo invulgar em outras paragens, a abertura, a liberdade quase absoluta para fotografar máquinas e operários, peças e matérias-primas. A pergunta, o inevitável pedido de autorização para registar imagens, soava até estranha aos anfitriões, de tão óbvia era a resposta. Afirmativa. Com os dias, fotografar foi-me parecendo menos invasivo, mais natural, quase o motivo para ali estar. Quase uma obrigação, a de capturar o trabalho, de retratar o proletariado Chinês, de o mostrar tal como ele é, sem artifícios e encenações, sem flash ou tripé, com o essencial apenas, o recato, a luz cerimoniosa, o fogo dominado, forjas, fundições, alumínio e latão. Apenas o essencial. O Proletário.

V

Contradições. Reina aqui, no Império do Meio, a política de filho único, contrariando o Rei Romano, privando a classe proletária da utilidade de gerar prole, que a definia nos idos tempos do Império Romano. Mantém-se a privação dos meios de produção, mantém-se a venda da força do trabalho por remunerações, adivinho, insuficientes para a subsistência condigna. Contradição, num país rotulado de Comunista. Mas que exibe até à exaustão a lógica Capitalista que, no Século XIX levou à redefinição do termo. Proletário.