Proletário

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I

Proletário. Indivíduo que, segundo Sérvio Túlio, não possuía outra utilidade para além da capacidade de gerar prole para engrossar as fileiras do exército romano. Estávamos no Século V antes de Cristo, e esta é a primeira definição do Proletário, qua haveria de perdurar até ao efervescente Século XIX. Aqui, o termo Proletário foi resgatado, para responder à necessidade de definir a classe trabalhadora saída da Revolução Industrial, privada de propriedades ou de qualquer outro meio de subsistência, que não a venda da sua força de trabalho à classe dominante, a classe Capitalista, detentora dos meios de produção.

II

China, 2014. A viagem era de trabalho e haveria, imaginava, pouco espaço para fotos, menos tempo para turismo. Um plano mínimo e muitas viagens aconselhavam bagagem leve. A pesada reflex perdia a batalha para a pequena compacta. Seria a pequena fuji a acompanhar-me nessa longa jornada.

III

Três semanas, de Guangzhou a Shanghai. De comboio ou avião, autocarro e taxis. Foshan, Shenzen e Wuhan. Ningbo, Yuyao e Wenling. Um sem-número de fábricas a visitar, várias por dia. Fundições, alumínio, latão e forjas. Fábricas, muitas fábricas vindas directamente do passado, de um passado longínquo, da revolução industrial, do Século XIX. Da reinvenção do Proletariado.

IV

As primeiras visitas, as primeiras fábricas revelaram algo invulgar em outras paragens, a abertura, a liberdade quase absoluta para fotografar máquinas e operários, peças e matérias-primas. A pergunta, o inevitável pedido de autorização para registar imagens, soava até estranha aos anfitriões, de tão óbvia era a resposta. Afirmativa. Com os dias, fotografar foi-me parecendo menos invasivo, mais natural, quase o motivo para ali estar. Quase uma obrigação, a de capturar o trabalho, de retratar o proletariado Chinês, de o mostrar tal como ele é, sem artifícios e encenações, sem flash ou tripé, com o essencial apenas, o recato, a luz cerimoniosa, o fogo dominado, forjas, fundições, alumínio e latão. Apenas o essencial. O Proletário.

V

Contradições. Reina aqui, no Império do Meio, a política de filho único, contrariando o Rei Romano, privando a classe proletária da utilidade de gerar prole, que a definia nos idos tempos do Império Romano. Mantém-se a privação dos meios de produção, mantém-se a venda da força do trabalho por remunerações, adivinho, insuficientes para a subsistência condigna. Contradição, num país rotulado de Comunista. Mas que exibe até à exaustão a lógica Capitalista que, no Século XIX levou à redefinição do termo. Proletário.

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