“ter uma terra é o diabo…”

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Demorou quarenta e cinco anos, quarenta e cinco exactos anos para descobrir que lhe pertencia, para perceber que era aquela a sua terra. Não outra, não essa cidade onde nasceu, nem a outra, onde viveu, ou sequer aquela onde casou e que o levava a atravessar oceanos, tão-pouco essa que agora lhe dá o pão. Era aquela serra, aqueles penedos toscos, o rude granito e a terra dura, a vegetação rasteira e os pinheiros vergados, o ar milagroso ou as núvens de Besteiros, o frio do Caramulinho e a neve envergonhada, o museu ou os decrépitos sanatórios, a chanfana dos Jueus e a laranja do Figueiral, as uvas de Janardo ou os tortulhos dos lameiros, os piscos que resistem ao inverno e as borboletas que enfeitam a primavera, era aquela serra que se abatia agora sobre ele com o peso da saudade, com a urgência do regresso. Ao frio, à lareira, ao velho Café Marte ou ao passeio matinal pelo “povo”, às rabanadas ou à sopa-seca, regresso a si mesmo, agora que sabia ser dali. Só dali, do Caramulo, Paredes do Guardão ou Serra de Alcoba, tanto faz. É ali que regressará, depois de contar os dias, as horas e os minutos. Os passos, milhas ou quilómetros até chegar, em véspera do seu quadragésimo quinto Natal. Assim o ajude a estrela, assim o guie o destino…

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