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Sangano, à distância

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Imaginava-a amuada e triste, imaginava-a chorosa pelo descaso, pela certeza de ter sido trocada. Por uma mais jovem, estaria certamente a pensar. Mais leve, mais disponível, mais rápida. Mas nada disso aliviava aquela sensação. A de sabê-la triste. Era agora outra a que o acompanhava pelas ruas de Luanda, era outra a que havia de acompanhá-lo até à distante China. Sempre fora assim, o entusiasmo da novidade trazia com ele uma tristeza agridoce, uma culpa pela troca. Depois, sabia-o, cada uma acabaria por encontrar o seu espaço. Pois se a velhinha D2x não lhe podia dar a discrição necessária em ruas movimentadas e velhas fábricas sujas, também a pequena Fuji XQ1 não lhe poderia dar a distância, a possibilidade de não-invasão e a consequente intocabilidade da cena. Não poderia nunca dar-lhe os falcões peregrinos das escarpas da praia de Sangano, ou os ariscos caranguejos das areias dessa mesma praia, resguardada a espaços pela maré alta. Ou as zungueiras, calcorreando milhas de lagosta na mão, não lhas poderia dar sem intromissão na sua labuta. Como na do pescador que cose as redes antes da faina. Sem ela Sangano não seria a mesma. Não poderia, por isso, substituí-la. Condená-la, condenar a mítica Nikon D2x ao esquecimento. Ao fundo de uma velha mochila.

(fotos tiradas por corpo Nikon D2x e objectiva Nikkor 500mm f8 na praia de Sangano, entre Setembro e Novembro de 2014)

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